Allbert Gonçalves

Você é minha inspiração

Textos


O Invisivel

 

Ele desceu do ônibus

como quem desce da própria vida,

cabisbaixo, arrastando os passos

num chão que já não o reconhecia.

 

As pessoas passavam

— vultos apressados —

e atravessavam seu corpo

como se fosse feito de vento.

Ninguém o via.

Ninguém o sentia.

Ninguém sabia que ali caminhava

um homem partido.

 

Seu rosto carregava o peso das noites,

seus olhos traziam tempestades antigas,

e sua voz…

quase não existia.

 

Ele só sabia escrever.

Escrevia porque era a única forma

de não dissolver a própria alma.

Mas seus poemas, tristes e profundos,

ficavam perdidos na visão míope

de quem nunca tentou entender sua dor.

 

Desde que ela — sua única luz — partiu,

sua estrada tornou-se um longo inverno.

Nenhum sol o tocava,

nenhum sonho sobrevivia.

 

Seguia como quem cumpre

uma sentença silenciosa,

como quem vive porque o corpo insiste,

mas o coração…

o coração já desistiu faz tempo.

 

E no frio que tomou sua vida,

lembrar dela era o único fogo que restava.

Um fogo fraco, triste,

que não aquece,

mas também não deixa morrer.

 

Ela era um verão que não veio,

um outono que o abandonou,

e no inverno que ficou,

ele caminhava sozinho,

dia após dia,

abraçado ao vazio.

 

Sabia que ela não voltaria,

sabia que nada mudaria,

e ainda assim,

todas as noites,

fechava os olhos

para sonhar com aquilo

que nunca mais poderia tocar.

 

E assim ele vivia:

um homem invisível,

um poeta sem palco,

uma alma que o mundo não escuta,

carregando no peito

um amor que já morreu,

mas que teima em assombrar.

Alberto Gonçalves
Enviado por Alberto Gonçalves em 25/11/2025
Alterado em 29/11/2025

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