

O Invisivel
Ele desceu do ônibus como quem desce da própria vida, cabisbaixo, arrastando os passos num chão que já não o reconhecia.
As pessoas passavam — vultos apressados — e atravessavam seu corpo como se fosse feito de vento. Ninguém o via. Ninguém o sentia. Ninguém sabia que ali caminhava um homem partido.
Seu rosto carregava o peso das noites, seus olhos traziam tempestades antigas, e sua voz… quase não existia.
Ele só sabia escrever. Escrevia porque era a única forma de não dissolver a própria alma. Mas seus poemas, tristes e profundos, ficavam perdidos na visão míope de quem nunca tentou entender sua dor.
Desde que ela — sua única luz — partiu, sua estrada tornou-se um longo inverno. Nenhum sol o tocava, nenhum sonho sobrevivia.
Seguia como quem cumpre uma sentença silenciosa, como quem vive porque o corpo insiste, mas o coração… o coração já desistiu faz tempo.
E no frio que tomou sua vida, lembrar dela era o único fogo que restava. Um fogo fraco, triste, que não aquece, mas também não deixa morrer.
Ela era um verão que não veio, um outono que o abandonou, e no inverno que ficou, ele caminhava sozinho, dia após dia, abraçado ao vazio.
Sabia que ela não voltaria, sabia que nada mudaria, e ainda assim, todas as noites, fechava os olhos para sonhar com aquilo que nunca mais poderia tocar.
E assim ele vivia: um homem invisível, um poeta sem palco, uma alma que o mundo não escuta, carregando no peito um amor que já morreu, mas que teima em assombrar. Alberto Gonçalves
Enviado por Alberto Gonçalves em 25/11/2025
Alterado em 29/11/2025 |